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Revelando Olhares

Fotografia é uma arte que não representa a realidade como ela é, mas sim a nossa interpretação do que está a nossa volta. Uma câmera é uma ferramenta poderosa, e na mão de crianças, permite que elas se expressem, construam uma identidade própria e identifiquem seu papel no meio em que vivem. É isso que acreditam as designers e fotógrafas curitibanas Deborah Shwanke e Carolina Corção, criadoras do projeto Revelando Olhares.

Carolina começou a fazer projetos sociais por incentivo da irmã mais velha, com adolescentes em escolas públicas. Sem saber como lidar com crianças e com somente algumas câmeras emprestadas, ela fez uma oficina de fotografia de uma semana durante uma imersão de férias em um colégio. No final, montou uma exposição com as fotografias, e o resultado foi chocante. Carolina viu que além de um bom nível estético, aquelas imagens tinham um significado. Não eram só fotos em uma parede, era o olhar das adolescentes sobre o espaço que era delas, havia uma construção de identidade dentro de cada foto. Vendo aquilo ela percebeu que não poderia simplesmente deixar aquele resultado guardado. Carolina continuou fazendo oficinas improvisadas e depois transformou o projeto de fotografia para crianças em seu TCC. “Eu queria trabalhar isso na infância, que é a idade em que a criança está recebendo as informações, ela está buscando isso. E ela precisa daquele freio visual porque o mundo hoje é muito intenso visualmente, e eu precisava inserir isso no universo delas.

Tempos depois Carolina conheceu Deborah, que também tinha vontade de trabalhar com crianças e fotografia em um projeto de transformação social. Juntas elas revisaram a metodologia das oficinas, atualizaram os conteúdos e resolveram colocar o projeto em prática. Elas conseguiram um local, doação de câmeras, pilhas, cartões de memória, e o que parecia mais difícil; gente, pessoas voluntárias que realmente estavam dispostas a ajudar e fazer uma diferença. “Eu vivia em um meio em que as pessoas achavam legal mas falavam: ‘Bacana, boa sorte. Tchau.’ Então eu achava que seria impossível angariar gente, fazer aquilo funcionar, gente que realmente comprasse a ideia… E nós conseguimos mais um membro para a equipe de coordenação, a Tainá Zanchet, e mais 30 voluntarios.

Hoje, Carolina afirma que o projeto está longe do estado ideal, por limitações de tempo das duas organizadoras e apoio financeiro. Mas elas continuam trabalhando para manter a metodologia atualizada, utilizam os feedbacks como oportunidade para melhorar cada vez mais, e buscam aumentar o número de crianças impactadas. Agora um dos objetivos é fazer o projeto ser economicamente sustentável, para facilitar a evolução do projeto. Carolina espera que esse seja o primeiro projeto de muitos; “Não consigo nem pensar em parar. É algo que já tomou forma, já nao é mais meu. Além de mim e da Deborah, é de muitas pessoas. Nós organizamos mas o projeto já não está mais nas nossas mãos.

O Revelando Olhares estimula as crianças para que possam construir uma identidade própria. Trabalhos de auto-retrato, de retrato dos colegas, de fotografias do espaço, são expressões pessoais de “como eu me vejo“, “como o outro me vê“. Essas relfexões permitem que as crianças possam descobrir quem são e descobrir qual o papel dela no meio em que estão inseridas. “É uma forma de fazer as crianças pensarem ‘O meu espaço também é bonito, não é só violência como o jornal diz, não é só sujeira, a escola não está tão ruim, ela tem coisas boas. E como é que eu posso melhorar?’… Fazer essa reflexão, fazer com que eles entendam essa importância do espaço onde estão, o que eles podem mudar como futuros cidadão ativos.” O projeto é uma rua de mão dupla, não são só as crianças os beneficiados. Elas aprendem a utilizar a fotografia como forma de expressão e também compartilham o conhecimento que tem com os voluntários e com as próprias gestoras do projeto.

Depois de todas as oficinas são feitas exposições com as fotografias. As exposições são feitas para que as famílias possam apreciar o resultado e para que os colegas também possam ver. Assim a comunidade pode perceber que eles também são produtores de algo, são produtores de arte e de conhecimento. Tudo isso é muito poderoso, e pode ser utilizado para o desenvolvimento da comunidade.

Ainda trabalho em agência, estou no mercado mas ele ainda não me preenche como pessoa atuante. O projeto é meu respiro, minha terapia. E é a forma mais eficaz de compartilhar todo o conhecimento que eu tenho dentro da sociedade… É fazer algo em que você acredita, eu sou daquelas que não consegue viver fazendo algo que você não acredita. E eu acho que tem muita gente que também concorda com isso. Se juntarmos essas pessoas, as que acreditam, vamos transformar muita coisa ainda.” diz Carolina. Ela acredita que podemos usar a nossa inquietação com algum problema como ponto de partida para uma mudança, que começa internamente e extrapola transformando os pequenos universos em que estamos inseridos. “O Brasil tem muitos problemas, e todo mundo sabe disso. Mas o que o Brasil também tem é a união, as pessoas se juntando pra fazer o bem. No Brasil percebemos que nós é que temos que fazer alguma coisa… E isso é uma visao muito positiva, e que dá esperança pra gente.”

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